(Doação de rações especiais)
Fiquei algum tempo pensando sobre como poderia descrever a experiência que eu e a Fernanda vivenciamos hoje… E cheguei a conclusão que mesmo que eu seja muito bem sucedida nesta tarefa, jamais poderia descrever o que sentimos.
Se foi difícil? Sim, foi.
Se foi compensador? Asseguro-lhes que foi uma das experiências mais fortes e compensadoras de toda minha vida, que atualmente conta 37 anos.
Ao chegarmos na SOZED fomos recebidas com carinho e respeito pela D.Úrsula, Garfield (um gatão enorme que fica na ONG), Garfieldinha, Duque e um poodlezinho branco que infelizmente esqueci o nome.
Entreguei as rações, explicando que era uma doação de amigos. E o olhar atendo e observador daquela que vive o cotidiano de um abrigo, sorriu junto com seus lábios, ao identificar rapidamente rações que são consideradas “medicinais” e caras. Expliquei que tinham sido passadas por uma petshop, porque o gato da loja tinha rasgado e aberto os sacos (vários deles).
Perguntei para ela o quê eles mais precisavam… E então D.Úrsula olhou em volta, voltando novamente a me encarar nos olhos, disse baixinho: “Olhe em volta, filha. Precisamos de tudo…”
Engoli em seco e olhei em volta. Ali tinham arquivos, pequenos papéis, uma televisão antiga, pequenos cantinhos para os animais que ali ficavam, cadeiras para as pessoas aguardarem as castrações e consultas de seus animais estimados e amados.
Falei com suavidade, encarando-a nos olhos o tempo todo. Deixei claro que tínhamos ido até lá para ajudar… No que fosse.
Então ela novamente sorriu e nos levou para conhecer o espaço. Passamos na sala ao lado, que também é copa e tem uma escadaria que leva para cima, onde podíamos escutar latidos. Passamos por um banheirinho pequeno (onde o Duque costuma ficar) e ela abriu uma porta para nos mostrar a primeira sala cheia de gatos.
Havia gatos da prefeitura, que estavam ali desde muito mais cedo (porque chegamos bem cedo também), aguardando a castração, que seria mais tarde. Todos em caixinhas de transporte… Mas um miado estridente e desesperado nos chamou a atenção.
Um filhotinho miúdo andava pela sala, tinha escapulido de sua gaiola. D.Úrsula preocupada, pegou o pequeno e levou para um ambiente adiante… Foi quando vimos as primeiras gaiolas.
Eu respirei fundo. Tinha prometido para mim mesma que faria tudo para não chorar e comecei a me controlar.
Como explicar para vocês o quê eu vi?
Não são simplesmente gatos em gaiolas. São VIDAS. Tão lindos, todos eles… Tão únicos.
Uma tricolor tigrada olhava através dos metais e estendeu a patinha na minha direção. Abaixei para vê-la, e logo a Fernanda estava fazendo carinho através das grades em um menorzinho, mais escuro (ou seria uma menina?). D.Úrsula conhecia todos pelos nomes, mas confesso que não consegui memorizar… Tantos nomes, tantas faces… Tantos olhares, carentes, famintos de amor.
Começamos a ajudar atrapalhadas, segurando caixas de remédios, segurando o pequenino, que descobrimos estar cego temporariamente (conjutivite gravíssima – mas já está sendo medicado). E depois de guardarmos este pequenino esganiçado, notei um dos gatos mais lindos que já vi em toda a minha vida… Um gato completamente branco, de olhos azul-turquesa. Paralítico.
Perdi o compasso do ar, admito. E isso tornou a se repetir nas mais de quatro horas que ficamos ali dentro. Muitas vezes perdi, por segundos, o chão… Ao olhar nos olhos daqueles gatos e cachorros.
Mas não chorei, não naquele momento. Falei com doçura com o gatinho branco, cujo nome acredito ser “Nevinho”, algo assim… E ele, derretido por ter atenção, ronronando alto, se esfregava nas pontas dos meus dedos, que eu conseguia enfiar na grade.
Não sei dizer se a D.Úrsula queria saber até onde queríamos realmente ajudar, não sei dizer se foi necessidade, se foi um acordo silencioso, se ela percebeu que tínhamos ido para lá preparadas para encarar qualquer coisa… Ela perguntou se queríamos agir, ajudar naquele momento.
E passamos pela sala de cirurgia, indo diretamente para a primeira sala de gatos em si. Uma sala pequena, repleta de gaiolas, e naquele ambiente, entre presos e soltos, cerca de 30 gatos.
Um rapaz trabalhava ali, e sorriu ao nos ver entrando. D.Úrsula foi simples e direta: Se quiserem, podem ajudar com as gaiolas.
Sem hesitar, começamos a fazer perguntas sobre os procedimentos e começamos a limpar as gaiolas, lavar banheirinhos, trocar jornais, lavar potes de ração e de água. Os gatos ficaram enlouquecidos de carinho, de amor. Ronronavam, esticavam suas patinhas tentando nos agarrar, tentando chamar nossa atenção… Uns apenas obsevavam, outros quase pularam em cima da gente. Fui abraçada por uma gatinha clara, ronronante, que lambeu meu braço e não queria mais me soltar.
E assim foi. Entre lavagens e trocas de jornais, distribuímos amor. Mesmo usando luvas, oferecemos carinho e dignidade para aqueles seres tão lindos, tão perfeitos, que mereciam camas macias e não jornais… Mereciam afagos e não apenas cuidados.
Depois da sala, fomos para um corredor externo. As gaiolas de cima tinham gatos, a de baixo cachorros… D. Úrsula nos orientou a cuidar dos felinos, porque os cachorrinhos seriam tratados pela D.Hilda e pelo rapaz simpático de nome complicado, que nos ensinou os procedimentos do trato cotidiano.
Então subimos (o rapaz sorrindente segurou um cachorro enorme, que parece ser meio bravo com estranhos) e passamos para mais duas salas de gatos. Não sei dizer ao certo quantos gatos vimos e cuidamos. Mais do que quarenta? Com certeza. Talvez uns sessenta, setenta. Não sei.
Se o trabalho foi duro? Acho que sim, por falta de hábito. Foi e é um trabalho físico.
Só que aliado ao trabalho físico, tivemos um estresse emocional violento. O sentimento de impotência diante daquelas realidades é emagador. Surge também, lá no fundo do coração, um sentimento de revolta muito grande… Bem difícil de ser contido.
Como conseguimos não chorar até aquele momento? Foco. Focamos a nossa atenção na limpeza, nas lavagens, nos jornais, nos afagos que precisavam ser rápidos… Nas breves palavras de carinho para aqueles animais.
O quê aprendemos? Se fôssemos dar atenção apenas aos nossos sentimentos e ao sofrimento que experimentamos, não voltaríamos mais a pisar em um abrigo nunca mais. Mas o brilho nos olhares daqueles animais nos ensinou mais… Que o BEM que fizemos para eles é INFINITAMENTE maior do que qualquer sentimento de auto-piedade que poderíamos ter.
No final do nossa primeira manhã de domingo na SOZED (iremos todos os domingos de agora em diante) aconteceu algo surpreendente…
Ontem tivemos uma reunião do nosso grupo (MiAçãO) na casa da Gi e do Xande, e ele nos contou sobre um caso de um gatinho muito bebê que ele tinha visto por lá, quando foi levar os gatos da Marcinha para castrar… O gatinho tinha caído de um telhado, onde tinha nascido. E foi socorrido por uma das voluntárias da SOZED. O pequenino é tão miúdo, que ainda toma mamadeira… Por sua estrutura física, não deve passar de um mês de vida.
Então… Estava eu, sentada na escada, com o pequenino em pezinho no meu colo, dando a mamadeira (também na posição vertical, para ele não engasgar – orientada pela D.Úrsula, claro).
A D.Úrsula estava perto, me ensinando a dar a mamadeira… E comentando que ele era muito mimado e ficava miando, pedindo atenção. O tom era de brincadeira, claro. E eu, curiosa, perguntei qual era o nome daquele pequenino.
A resposta dela me fez chorar… Pela primeira vez ali dentro, não pude me segurar.
O nome do bebezinho que caiu do telhado onde nasceu? É PEDRINHO.
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Para aqueles que se preocuparam com as nossas pequeninas, o Paulo colocou-as na cozinha, enquanto nós corríamos para o banho. Tomamos todos os cuidados de higienização possíveis.
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O quê a SOZED precisa? Tudo.
Mas precisa principalmente de voluntários, que coloquem o bem dos animais acima dos próprios sentimentos (de impotência, de revolta, de sofrimento).
Repito: o BEM que fazemos para estes animais, simplesmente AGINDO, é incalculável.
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http://www.petshoparmar.com.brNossos parceiros. Doaram várias das rações medicinais que foram destinadas para a SOZED.